O meu primeiro fim-de-semana (completo) na Nova Zelândia, foi bastante relaxado e espontâneo.
Depois de uma semana épica a terminar com um pôr-do-sol incrível, foi tempo de festejar uma última vez antes de começarmos as aulas, mas também de recuperar dos excessos da semana anterior e aproveitar para conhecer a cidade.
Passei a tarde de sábado toda fora de casa a vaguear pelas ruas com duas amigas do complexo, a Evie (UK) e a Caroline (EUA).
Em caminho para o centro da cidade, passámos por uma farmácia a oferecer granizado e não recusámos. Parece que por aqui há sempre algo gratuito para visitar, participar ou receber.
Começámos por visitar o centro comercial, que eu já tinha espreitado durante a semana, para fazer compras para nossa casa, que nos foi entregue um pouco despida.
Almoçámos por lá. Eu mantive-me fiel ao Subway e a Evie acompanhou-me. A Caroline que é vegetariana achou melhor prevenir e por isso já tinha almoçado por casa.
Satisfeitas, encaminhámo-nos para o Octagon que é a rotunda/praça central e principal de Dunedin. Também já lá tinha passado, mas desta vez a rua que atravessa o "octógono" estava fechada para um pequeno campeonato regional de basquetebol 3x3.
É também por aqui que se encontra o teatro mais conhecido da cidade (Regent), o cinema e alguns bares e discotecas (que eu ainda não tive oportunidade de visitar).
Seguimos para o Queens Garden e passámos pela estação de comboio que segue o estilo dos edifícios mais antigos da faculdade. Mesmo ao lado há um museu e um jardim chinês que estão na minha lista de passeios para realizar brevemente.
Queens Garden
Queens Garden
Entrada do jardim chinês
Estação de comboios
De regresso ao centro passámos pela primeira igreja de Otago.
Fizemos a minha enésima visita ao supermercado (juro que há sempre coisas que ficam por comprar) e voltámos para casa.
No caminho fiz algumas paragens. As ruas da cidade estão cheias de pinturas e graffitis que eu não consigo evitar fotografar. Descobri recentemente que existe mesmo uma rota com cerca de 25 murais espalhados pela cidade, que eu deverei realizar muito em breve.
Este nem é dos mais giros...
Noite de sábado aqui é sinónimo de beber e sair de casa.
Na deste fim-de-semana, eu e os meus amigos do complexo fomos para outro complexo no final da nossa rua (com o triplo do tamanho do nosso, muito mais moderno e com aparência mais recente) onde acontecia um concerto e uma after party.
Mesmo ao fim de uma semana em que fui/soube a/de várias festas não consegui deixar de ficar impressionada pela proporção que estas tomam. Toda a gente abre os seus flats e as pessoas circulam pelo jardim mas também pelo interior das casas. Desde que percebi a dinâmica que deixo sempre a porta do meu quarto trancada, ainda que, e já tendo andado muitas vezes na rua à noite (sozinha e acompanhada), nunca me tenha sentido em perigo, não gosto de deixar os meus pertences abandonados à sua sorte.
As pessoas podem perder um pouco a cabeça com o consumo de álcool mas é impressionante como nunca deixam de se preocupar em reciclar e ser socialmente responsáveis. As ruas estão sempre limpas!
A calma do dia de domingo contrastou com a azáfama da noite anterior. Em nossa casa foi dia de limpezas e de tratar da roupa suja. Eu já acumulava toda a roupa de verão que usei na Austrália e uma semana de Nova Zelândia por isso pus mãos à obra.
A minha falta de experiência nas lides domésticas ficou clara quando confundi a máquina de secar com a de lavar. (Para minha própria defesa, a máquina de secar de cá tem o tambor redondo como a minha máquina de lavar em casa e a de lavar é como se vê em filmes/séries americanos/as com tampa em cima).
A de cima é a de secar e a de baixo a de lavar.
Descobrir onde pôr o detergente também foi interessante...
Durante a tarde voltei a ir ao supermercado, mas desta vez só para acompanhar a Caroline que ia fazer compras maiores. Em vez de ir ao supermercado central a que estava acostumada fomos ao que fica na direção oposta, mais à saída da cidade. O caminho para o mesmo, feito pelo Jardim Botânico, além de mais rápido é muito mais pitoresco e agradável.
Ao final da tarde aventurei-me pela primeira vez numa ida ao ginásio (que é gratuito para estudantes da universidade) e fica no estádio da equipa de rugby local, os Highlanders.
Campo que fica em caminho do ginásio e onde decorreram as atividades do Sports Day
Entrada do ginásio/centro recreativo a que eles chamam Unipol
Como odeio salas de musculação e/ou cardio fui a uma aula de grupo (Pump) na esperança de encontrar um ambiente parecido com as que frequentava em casa.
As saudades que me deram da Quinta da Marinha... A aula estava pelas costuras! Não me dei ao trabalho de contar mas apostava em cerca de 50 raparigas a fazer agastamentos e a levantar pesos.
Um ponto positivo foi definitivamente a intensidade. Além de todas levantarem cargas muito superiores às que estava habituada em casa, o ritmo também me pareceu mais acelerado (mas eu não via um ginásio há 3 semanas por isso a percepção pode ter sido algo deturpada pela minha fraca condição física).
No final decidi investir no estilo de vida saudável e inscrevi-me para o programa das aulas de grupo por 65NZD(=42,25€) pelo semestre inteiro.
Voltei a casa, morta de cansaço e pronta para uma longa noite de sono antes do meu primeiro dia de aulas. Mesmo assim, não consegui deixar de estranhar o silêncio que invadiu as ruas e senti falta da música alta e da confusão das noites anteriores.
Academic Orientation Week comprises of a wide variety of academic events to assist students settling into university life.
Apesar do nome, não sei se me pude considerar orientada no final da semana. Mas foi incrível e passou a correr.
Não quero (nem vou estar a) fazer uma descrição exaustiva do meu dia-a-dia durante este período de tempo, como fiz para a viagem pela Austrália ou para a minha chegada aqui. Vou só tentar cobrir os eventos mais importantes e marcantes.
Foi uma semana agitada, divertida e diferente. Houve festa mas também houve assuntos sérios a tratar. E eu tentei encontrar um equilíbrio entre os dois. (In)felizmente nunca fui uma pessoa com muito equilíbrio (literalmente falando).
Festas aconteceram todas as noites, um pouco por todo o lado. Não fui a todas, nem pouco mais ou menos. Fui às que quis, consegui e me apeteceu.
Para minha sorte e não muito por coincidência (porque na verdade eu já tinha enviado um e-mail para o escritório dos Uni Flats), o meu flat não se limita a ser uma casa num terreno; na verdade, faz parte de um complexo de 7 flats dispostos de forma não muito organizada de tal maneira que acaba por criar um pequeno pátio entre eles. Foi aqui que criámos a nossa própria comunidade e "pequena" família.
Ao todo somos 37, de onde 7 são kiwi hosts, e dos restantes a maioria é norte-americana. Ainda assim conseguimos ser 7 oriundos da Europa (Portugal, Inglaterra, Irlanda, Noruega, França e República Checa) e ainda ter uma rapariga do Taiwan.
Mantivémo-nos juntos tanto quanto nos foi possível nas atividades a que aderimos. Inclusive adotar amigos de estimação.
Este é um visitante regular
Este apanhou-me de surpresa na nossa sala
No primeiro dia fui mais independente e autónoma e tratei da minha situação financeira.
Não sei se já alguma vez, por auto-recriação experimentaram procurar dólares neozelandeses em Portugal mas estes são praticamente inexistentes. Por isso todo o dinheiro que trazia nos bolsos até chegar ao aeroporto de Christchurch eram euros (consegui acabar com a minha liquidez australiana) e eu optei por trocar muito poucos nessa altura porque queria abrir a minha conta cá e não sabia qual era o mínimo suficiente.
Por esse mesmo motivo, a minha primeira paragem foi o banco, ANZ. Mesmo coladinho à universidade e com o próprio nome da mesma, não encontrei motivos para me aventurar noutro banco qualquer. Ao fim de uma hora tinha aberto a minha conta e tinha um cartão provisório pronto a ser usado em qualquer máquina multibanco ou terminal EFTPOS (como eles chamam aqui).
Muito mais folgada financeiramente, fui despachar o meu check-in como estudante internacional e inscrevi-me numa visita guiada pelo campus. Esta última decisão revelou-se uma perda de tempo porque o campus era gigante e continuei sem saber metade dos nomes dos edifícios onde vou ter aulas.
Food court onde estava montada a recepção para o check-in de estudantes internacionais
Welcome Pack da Universidade (uma série de formulários e uma caneta, nada de outro mundo...)
Ponto alto da visita guiada: a minha faculdade é a que tem melhor vista para o Otago Harbour e para o estádio da equipa de rugby local, os Highlanders
Nessa noite, não houve festa. Os nossos kiwi hosts do complexo pegaram nos seus carros e levaram-nos até ao ponto mais alto da cidade para podermos ver Dunedin noutra perspectiva.
Para minha grande alegria, que adoro fotografias, um dos meus colegas de casa é aspirante a fotógrafo e tirou uma chapa que bate qualquer uma das que tenho no iPhone, por isso podem apreciar esta e outras fotografias das viagens dele pela Nova Zelândia, aqui:
No dia seguinte, terça-feira, não se fez grande coisa de manhã. À tarde era o dia do Sports Day e eu tinha-me inscrito para jogar voleibol. Por volta das 13h reunimos a parte da família do complexo que estava interessada e partimos para o campo.
Não estava nada à espera do cenário com que me deparei quando lá cheguei. Aos poucos iam chegando vários grupos de pessoas provenientes de vários colleges (que é o nome que dão aos dormitórios universitários de cá), todos vestidos com a sua cor e a entoar os seus gritos. Havia uns com gaitas de foles e tudo. Parecia um cenário de um filme americano. Só mesmo de um filme, porque eu perguntei aos meus amigos se aquilo também acontecia nas universidades americanas deles e eles disseram que nunca naquela dimensão, pompa e circunstância.
O campo, que fica a 10 minutos a pé do meu flat, tem uma envolvente de colinas mesmo gira. Não levei o telemóvel porque achava que ia jogar e por isso fiquei sem fotografias, mas o que não faltavam eram câmeras fotográficas e de filmar a cobrir o evento. Desisti da ideia de jogar muito rápido. Estava um sol abrasador e como eram tantas equipas, tínhamos de esperar meia hora para jogar jogos de 3 minutos.
(Ainda não encontrei vídeos mas há fotografias que mostram a intensidade do evento:)
Acompanhei os meus amigos ao churrasco gratuito que acontecia nas laterais do relvado e depois seguimos de volta para o complexo. O tempo estava tão agradável e quente que aproveitámos para apanhar sol no nosso pequeno relvado.
Para jantar decidimos aproveitar uma promoção de leve 2 pague 1 para comer uns hambúrgueres de borrego muito famosos na Nova Zelândia, Velvet Burgers. São TÃO BONS e GIGANTES. Comi que nem uma rainha por 8,8NZD (=5,32€).
Quanto ao resto da semana... Como sou um ratinho das aplicações e dos manuais de instruções, comecei a semana com todo um plano super definido das palestras e sessões em que participaria na aplicação da orientation week que a universidade tinha preparado. Eu sou óptima a planear, juro que sou. Não tenho muito jeito é para seguir planos. Mas depois pus-me a pensar e quem é que precisa de ir a palestras com o nome "Success at University"?
Quarta-feira de manhã
Até para a sessão de boas-vindas para estudantes internacionais me arrastei a muito custo. Pareceram as duas horas mais longas da minha vida. E para melhorar a situação, a sessão teve início com um senhor muito estiloso de fato com gravata e meias com um padrão galáctico que iniciou o seu discurso com um monólogo em Maori. Não estou a exagerar quando digo que estive um minuto e meio a tentar perceber se era inglês e eu é que era burra e não percebia. O senhor fazia pausas constantemente e sempre que eu achava que ele tinha terminado e ia começar a falar inglês, ele continuava perante uma plateia super confusa e algo desinteressada.
Eventualmente, e depois de mandar mil frases do género "He aha te kai ō te rangatira? He Kōrero, he kōrero, he kōrero." (na realidade não faço ideia do que ele dizia, mas imagino que fossem coisas muito inspiradoras por isso fui tirar esta ao google cuja tradução é: What is the food of the leader. It is knowledge. It is communication.), lá passou para o inglês e nos deu as boas-vindas.
A sessão foi bastante informativa: o que (não) fazer quando se viaja pela Nova Zelândia (porque no ano passado um estudante internacional morreu a tentar atravessar um rio), números de emergência, a percentagem do staff da faculdade que não é neozelandesa (70%, ou seja, estou numa universidade muito internacional), ser proibido queimar sofás (é uma tradição dos estudantes cá que já aconteceu na rua do Leo; os alunos responsáveis são expulsos da faculdade), não consumir drogas...
Depois fomos encaminhados para o estádio dos Highlanders, equipa local de rugby, onde fica também o ginásio gratuito da minha faculdade. Havia uma exposição com vários serviços da faculdade e da cidade e mais uma vez almoço gratuito que eu ignorei por completo.
Regressei ao complexo para me juntar aos meus amigos e ir para a feira de clubes que decorria no edifício principal.
Sou capaz de me ter excedido um pouco na quantidade de clubes e sociedades em que me inscrevi. Quando dei por mim, estava a assinar uma petição para a universidade cessar a utilização de combustíveis fósseis. No final da tarde estava inscrita no Otago Students Boardriders (Surf Club), na fundação Ronald McDonald's, numa aula de Capoeira, numa aula de yoga e meditação e no Comp Girls Otago (que é basicamente um grupo de raparigas que se reune todas as terças para comer pizza e falar de tecnologia). Ainda levei para casa brochuras de vários cursos que a OUSA (associação de estudantes cá do sítio) tem para oferecer, entre eles Ukulele para Iniciados, Japonês para Iniciados e Fotografia Digital para Iniciados também.
Surpreendentemente, ou não, consegui não me inscrever no clube mais famoso da faculdade, o Tramping Club. Basicamente o que organiza excursões, caminhadas, acampamentos e todas essas coisas tão neozelandesas. Não tinha student ID, culpa do International Office que não introduziu o meu visto corretamente no sistema, e por isso não conseguiria de qualquer forma. O que vale é que eles aqui gravam e fotografam tudo:
Clubs Day - Ori 2016
OUSA Clubs Day is happening right now in the Link of the ISB. You've got until 4pm this afternoon to check out all of the exciting diverse clubs and societies on campus, so head over and get amongst!
Posted by OUSA - Otago University Students' Association on Tuesday, February 23, 2016
Eu e a minha mania de aderir e assinar tudo valeram-me 5 minutos ao telefone com um coordenador de uma igreja porque tinha preenchido um inquérito só para receber um (ou talvez dois) donuts.
Quando cheguei ao complexo, a Jordan e a Caitlin estavam a comentar que com o calor que estava o ideal era ir à praia. Em menos de 5 minutos vestimos os nossos bikinis e fizemos-nos às estrada rumo a Macandrew Bay, uma praia mesmo pequenina mas deserta ainda no interior da península de Otago.
O tempo estava mesmo agradável e o sol abrasador. Fiquei a saber que os kiwis sofrem muito de doenças de pele porque existe um grande buraco na camada de ozono exatamente por cima da Nova Zelândia. Apesar disso, a água estava insuportavelmente fria. Os mergulhos no Guincho ficaram a parecer uma brincadeira ao lado dos mergulhos nas águas por aqui. E por isso, tinha a água pelos joelhos quando desisti.
Quinta-feira era o último dia para ir a todas sessões informativas. Eu só queria ter ido à do IT para aprender a usar o meu e-mail e os sistemas de impressão da faculdade mas como continuava sem student ID, não fui capaz. Foi o dia em que pela primeira vez me dediquei à cozinha e fiz um prato (básico mas) decente. Especialidade da minha mãe: strogonoff de frango. E desde aí que tenho optado por comer em casa, porque além de mais saudável (na primeira semana os meus colegas de complexo comeram imenso fast food) e económico, já estava a morrer de saudades de sabores familiares e de ARROZ. (A Caitlin fica sempre espantada com a quantidade de arroz que como).
Sexta-feira fiquei a maior parte da manhã em casa na ronha. A falar para Portugal para me pôr a par de novidades. À tarde consegui finalmente o meu student ID, mas se calhar não devia ter conseguido.
Lição: nunca fazer o cartão de ressaca e depois de tomar banho sem secar o cabelo
Aproveitei e comprei cadernos e o material escolar que me fazia falta numa das lojas da universidade. Sim, porque a universidade tem só no edifício principal, fora todos os outros, um mini supermercado, um café, uma loja de sanduíches (muito parecida à cadeia Subway e onde eu já devo ter almoçado três vezes) e uma loja de material escolar (que ao contrário do que seria de esperar é muito mais em conta que qualquer papelaria/supermercado fora da universidade).
Durante a tarde quis ir explorar a cidade com liberdade e por isso fui sozinha. Aproveitei e entrei no único centro comercial de maiores dimensões de cá para explorar um pouco. Comprei uma lembrança para o aniversário da minha kiwi host e fui ao supermercado pela enésima vez desde que cheguei, porque parece que me esqueço sempre de comprar qualquer coisa.
E assim de repente estava terminada a minha orientation week. No final parecia que já estava aqui há um mês ou dois, e o meu quarto e o meu flat já me sabem muito à minha segunda casa.
Sinto imensa falta de ter a família e os meus amigos por perto. A diferença dos fusos horários faz com que os dias, especialmente as tardes, custem um pouco a passar pois não há notícias de casa. Mas não me posso queixar porque sou uma sortuda que tem sempre pessoas com quem falar de manhã e à noite. (Os meus colegas do complexo acham incrível, e estranho, porque não falam para casa um terço do que eu falo e têm fusos horários, ainda que maiores, muito mais compatíveis).
Finalmente escrevo a partir da terra dos Kiwis (não o fruto, mas sim o animal símbolo desta nação perdida num canto do Pacífico), a 19 472Km de casa.
Chegar aqui não foi fácil. Se a minha família e amigos acham que eu chorei muito em Lisboa, deviam ter visto a minha figura no aeroporto de Sydney.
Custou-me mesmo horrores deixar a Madalena (e o Pedro, vá...).
O taxista foi super impecável e paciente. "Departures are always hard!" disse ao volante, e eu atrás concordava entre rios de lágrimas, baba e ranho.
Bati mesmo no fundo. Apercebi-me de que era o fim da brincadeira; altura de virar mulherzinha e vir fazer aquilo a que me tinha proposto fazer.
Já no aeroporto, o Leo perguntava-me de dois em dois minutos se eu estava mesmo bem. Acho que ele estava com medo que me desse alguma coisinha má.
Arrastei-me pelo terminal, desde a zona dos seguranças à porta de embarque. Chorei mais um pouco e embarquei.
No meu lugar à janela continuei no meu pranto, o Leonardo continuava a olhar para mim desesperado sem saber o que fazer. As pessoas iam entrando e os dois lugares ao meu lado continuavam vazios. No meio daquela solidão estúpida que eu estava a sentir, fiquei feliz porque pensei que ao menos poderia esticar-me e dormir para parar de pensar em tudo o que me ocorria.
Uns dois minutos antes de o embarque terminar entram 5 pessoas no avião e os lugares ao meu lado foram ocupados por um casal de terceira idade. Maravilha.
Todo um cenário muito dramático para acompanhar o meu estado de espírito
Neste primeiro voo (sim, ainda foram precisos dois voos a partir de Sydney para cá chegar) vim na Virgin Airlines. Eu achava que era uma companhia low cost, sinceramente nem me informei muito bem e continuo sem saber mas low cost ou não, deu MIL a ZERO à Emirates. Muito mais espaço entre bancos, bancos de pele e confortáveis e excelente entretenimento e comida a bordo.
Ao fim de meia hora de viagem estava a desesperar. Não tinha nada com que me entreter, ou se tinha não me apetecia. Não havia ecrã tátil desta vez e a minha cabeça continuava a mil à hora.
Do nada, as hospedeiras passam com um carrinho e começam a distribuir tablets Samsung a passageiros que estavam numa certa lista. Sempre muito optimista parti logo do pressuposto de que o meu nome nunca na vida constaria em tal papel. Eu tinha comprado o bilhete regular pela Air New Zealand e estava a viajar numa companhia parceira por isso não me estava a ver merecedora de tal privilégio.
Até que "Miss Joana Lima would you like your tablet for flight entertainment?" "Yes, pleaaaase!". O entretenimento era feito via Wi-Fi, e havia toda uma seleção de filmes (havia uma categoria só para o Leonardo Di Caprio!!!) e música (com muito destaque para bandas australianas).
Eu que adoro estes gadgets limpei as lágrimas e comecei a brincar até servirem o jantar. Um bocadinho antes disso foram distribuídos os questionários de imigração para a Nova Zelândia; a senhora de mais idade que se sentou ao meu lado apercebeu-se que eu procurei uma caneta na minha mala sem sucesso e muito amavelmente emprestou-me a dela.
Toda uma conversa surgiu a partir daí. Nunca cheguei a saber o nome dela, mas eu contei-lhe porque é que estava naquele estado e pedi desculpa pelo meu fungar constante. Ela ouviu super atentamente a minha história e depois foi a minha vez de ouvir a dela. Eram um casal de ingleses que tinha emigrado para Perth, na Austrália, há vinte anos atrás, e que entretanto tinha atingido a idade da reforma e ocupava o seu tempo a viajar.
Mostrou-me a volta que tinham dado à Austrália no anterior no seu GPS, falou-me da filha e da viagem que iam os dois fazer com casais amigos em caravanas pela ilha Norte. De repente, no meio de tanta conversa, tínhamos aterrado em Christchurch.
Se três horas antes estava no fundo do poço, ninguém me reconheceria quando pus os pés no aeroporto. As paredes dos corredores à saída do avião tinham fotografias de sítios espetaculares da Nova Zelândia e eu comecei a entrar no espírito e a entrar em êxtase.
Por volta da uma da manhã, tinha o meu passaporte carimbado para os próximos 4 meses e meio.
A entrada na Nova Zelândia não é brincadeira. Eles levam mesmo a sério a proibição da entrada de espécies estranhas ao território. Fazem mesmo testes às solas de botas de montanha para ter a certeza que não haverá contaminação com espécies invasoras.
Quando estava na recolha de bagagem passou uma segurança com o cão pelas minhas malas. Standard procedure. Tudo OK.
O meu entusiasmo morreu um pouco quando me lembrei que tinha uma escala de 8h pelas frente. Felizmente o limite de internet do aeroporto era uma treta e estive a falar para Portugal durante a maioria do tempo.
Quem me conhece sabe que odeio correr riscos, especialmente os desnecessários, e deixei logo bem claro ao Leonardo que eu não ia dormir e deixar as malas sozinhas, por isso ele podia dormir.
As primeiras duas horas passaram-se bem. Já as três horas seguintes, que eram o tempo até podemos despachar as malas, teimavam em passar.
Às 4h30 abriu o terminal doméstico e eu fui passear, ver os cafés e lojas. Aproveitei para comparar preços com os que tinha praticado na Austrália. Em geral mais baixos e o mesmo para a taxa de câmbio (yay!).
Voltei e tentei ver a entrevista que os meus irmãos estavam a dar para a RTP, mas em vão. A conexão à internet não era suficientemente boa.
Mesmo assim houve quem se lembrasse de mim do outro lado do mundo!
Tomei o pequeno almoço, a uma hora de abrir o balcão para o check-in, em desespero.
Às 6h30 fomos despachar as malas e dirigimo-nos para a porta de embarque. Podre de sono, usei a minha mochila como almofada, a minha longchamp como peluche e "adormeci". Sei que não estava a dormir realmente porque quando anunciaram o nosso embarque eu saltei da cadeira, entrei em piloto automático e corri para a porta de embarque.
Em modo zombie cheguei até ao avião. Desta vez, parte da frota da Air New Zealand. O meu cansaço era tanto que nem aguentei até às instruções de segurança. Mas devia, porque a Air New Zealand, considerada uma das melhores companhias aéreas do mundo é a rainha no que toca a fazer os vídeos de segurança, e eu que por esta altura já dormia que nem uma pedra perdi todo um espetáculo.
Apreciem por favor:
Existem mais com o tema do Senhor dos Anéis mas estes foram os meus favoritos.
Como em todos os voos, só acordei quando serviram comida. Tenho um sexto sentido que não falha mesmo durante o sono.
Ao fim de hora e meia chegámos a Dunedin.
DUNEDIN.
“The people are Scotch. They stopped here on their way from home to heaven thinking they had arrived.” - Mark Twain about Dunedin
Fomos recebidos pelo condutor do nosso shuttle. Um neozelandês gordinho e impaciente.
Eu não quis saber da impaciência dele e fui à banquinha que a nossa universidade tinha montada no aeroporto. Uma local super simpática explicou-nos como devíamos proceder nos dias seguintes, deu-nos uma checklist e depois de um briefing muito rápido. Ao fim de 5 minutos cedemos à pressão do nosso condutor e encaminhámo-nos para o parque de estacionamento.
O shuttle estava cheio de estudantes que como nós iam para o escritório dos Uni Flats (alojamento preferido pelos estudantes internacionais, que consiste em casinhas com 3 ou mais estudantes em ruas próximas da faculdade) para receber as chaves.
A viagem ainda durou uns 20 minutos, mas vínhamos à conversa com os nossos colegas (quase todos) americanos.
Chegados ao escritório, pediram-nos que disséssemos o nosso apelido para nos entregarem o envelope com a chave. "Lima". Nada. "Martins de Lima?". Nada. Pausa para pânico. "Guerreiro Martins de Lima???", "There you go!". Alívio.
Mais um briefing sobre como proceder, os documentos a preencher e os eventos dos dias seguintes e voltámos para o shuttle nos levar a cada um à nossa rua.
Dobrámos a esquina, e o condutor anuncia "Leith Street". Era a minha rua, e eu fui literalmente a primeira a ser entregue. Não tínhamos demorado nem 30 segundos e, por isso, dentro do shuttle riram-se todos. Eu saltei borda fora com as minhas duas malas de 20Kg cada e fiz-me ao passeio.
Larguei-as para tentar perceber onde era a nossa porta. Sabia que a minha casa era a B, mas não encontrava a letra em lado nenhum, até que finalmente dei com a porta das traseiras.
Entrei muito reticentemente a arrastar a mala grande, sabia que a minha flatmate estava em casa mas não sabia bem o que esperar.
Disse "Hello?", mas só à segunda tentativa é que obtive resposta. E foi assim que conheci a Caitlin, a minha kiwi host (no sistema Uni Flats, cada flat = casa tem um anfitrião neozelandês), com quem tinha trocado mensagens antes da minha chegada para esclarecer algumas dúvidas.
Subi até ao meu quarto que estava um pouco despido e oco. Estremeci um pouco e tive de respirar fundo várias vezes. Eram umas 10h da manhã, eu tinha dormido pouco e não estava a conseguir processar que esta seria a minha casa nos próximos meses. Pelo menos com a aparência que tinha inicialmente.
Abri o pack de roupa de cama e fiz a cama. A coisa começou a ganhar forma. Desfiz a minha mala e comecei a pendurar e a arrumar roupa nas gavetas. No final fiquei feliz com o resultado e o meu coração ficou um bocadinho mais aconchegado.
A Caitlin foi impecável. Disse-lhe que precisava de fazer umas compras básicas de supermercado. Não tinha adaptador para a tomada, shampoo e amaciador, cartão SIM para o telemóvel e não tinha comida de todo.
Juntamente com a melhor amiga dela, a Jordan, metemo-nos no carro dela e fomos às compras. Eu estava morta de cansaço e nem me lembro bem do nome dos sítios onde fui. Mas quando voltei a casa já tinha a lista toda das coisas que me permitiriam sobreviver aos primeiros dias. Adormeci e só acordei à hora de jantar.
Atentando no facto de que cá se janta às 17h30.
E foi assim o meu primeiro dia por cá. A noite... Fica para outros registos.
19 e 20 Fev 2016
P.S. Haere mai! é Maori (segunda língua oficial do país) para Welcome!